Como Florentino mudou a torcida organizada do Real Madrid?

GradaFan RM anima o Santiago Bernabéu jogo após jogo

Todos sabemos como uma torcida pode influenciar no resultado de algo, seja em um simples acontecimento corriqueiro do dia-a-dia ou, como normalmente vemos, no esporte. E no futebol, dentro dos estádios, temos o privilégio de ver como os torcedores apaixonados podem influenciar no resultado positivo. Podemos exemplificar usando um dos grupos de torcedores mais conhecidos no mundo por sua paixão interminável ao clube escolhido, a torcida do Corinthians; em 2012, após o time ter sua passagem carimbada para o Mundial de Clubes no Japão, os torcedores ficaram mais conhecidos pelo grande amor que os levou em massa até o país do outro lado do mundo, para acompanhar e prestigiar a vitória do time em solo asiático. E, assim como esse grupo apaixonado, torcidas em volta do mundo inteiro possuem aqueles que se dispõem em nome da devoção a entrar em grupos para seguir por onde for o seu clube. O que é o caso das Ultras.

Ultra é o termo utilizado para referir-se aos grandes apoiadores de futebol, de um clube. Desde os pequenos aos grandes times possuem um grupo que tenha essa disposição e fanatismo, fazendo de tudo para demonstrar-se fiel ao que defende. Também é associado ao que são os Hooligans. Um Ultra não tem descanso, estão vinte e quatro horas por sete dias da semana ativos, mesmo quando saem dos estádios ou das reuniões e tiram os cachecóis e camisas. Mas, nem todo esse amor é demonstrado de forma saudável. Os Ultras também esquecem das boas maneiras se forem atacados, muitas vezes defendem ideologias que podem alcançar a extrema-direita e, sem preceitos, demonstram isso ligando à imagem dos clubes, não utilizando.

“Ultra Sur” durante um jogo pela Copa do Rei contra o Athletic Club Bilbao em janeiro de 2002. Foto/Reprodução: AFP/Pierre-Phikippe Marcou

Em 1980 era fundada a Ultra Sur por um grupo de torcedores madridistas com essas características extremistas. Por muitos anos demonstraram suas ideologias quando estavam acompanhando uma partida e nas ruas, levando aos jogos bandeiras da Espanha Franquista, com a suástica e também cruzes celta. O histórico da Ultra, feita para acompanhar o Real Madrid com fanatismo, foi marcado por muita violência, o que fez com que em 2013, após uma briga gerada pelos próprios membros do grupo, numa partida entre Real Madrid e Real Sociedad pela La Liga, Florentino Perez optasse pelo banimento da organizada do estádio e rompimento do convívio com o clube.

A partir dessa decisão, Florentino começou a trabalhar no que seria o melhor para defender a imagem do clube que dirige, também usando como forma de afastar a violência nos estádios e em volta do futebol. Os lugares do Santiago Bernabéu foram demarcados para que aqueles que tenham envolvimento com a organizada se acomodem. Também houve a exclusão de pessoas com antecedentes criminais envolvendo a violência. Com todas as medida tomadas pelo presidente merengue, muito se foi cobrado sobre como o seu poder de decisão afetaria o envolvimento da torcida no meio do clube.

Grada Fans em 2020, sempre no gol sul do Santiago Bernabéu. Foto: Reprodução/GradaFanRM Twitter

Em 2014 a Grada Fans foi fundada, sendo a nova organizada a representar o clube, de forma mais vigiada. Para se tornar um membro, faz parte do processo assinar um contrato, no qual o torcedor interessado se compromete em agir com, basicamente, respeito em toda e qualquer situação. Neste contrato é defendido que não é permitido nenhuma forma de disseminação da violência, verbal ou física, racismo, homofobia ou qualquer ideologia política. O único desejo e objetivo que deve ser comum entre os membros é o mais puro madridismo, sem envolver questões que possam elevar uma visão distorcida do que irão defender.

Vivemos em um tempo em que o comportamento negativo, envolvendo causas como racismo e homofobia, entoados junto a violência, estão sendo combatidos. E a forma escolhida pela diretoria, usando como base a experiência com a, ainda ativa, porém banida, Ultra Sur, para salientar e prosseguir com mais uma mudança positiva durante a gestão de Florentino Pérez, pode não ser vista com tanto agrado por parte da torcida madridista, entretanto deve ser reconhecida como mais um bem feito do presidente.

Além de ter transformado o Real Madrid em uma multinacional, com grande influência em negócios, Pérez mantêm a preservação da imagem do clube de ser ligada à fatos que podem acarretar dúvida em cima da visão e dos valores construídos pela instituição. Levando em consideração que, além do território nacional, o Real Madrid Club de Fútbol alcançou outros continentes, chegando também ao Oriente Médio, e após alcance da incrível marca de 13 finais vencidas da Champions League, somado ao sucesso da gestão, se encaixa ao nível de uma potência do mundo empresarial.

Foto: Real Madrid C.F.