Toni Kroos e a disciplina de um futebol preciso e silencioso

Madri, verão de 2014. No gramado do Santiago Bernabéu era apresentado um jovem meio-campista de 24 anos, seu nome: Toni Kroos. De lá pra cá, se foram seis anos e aquele que já era uma realidade se tornou um dos melhores da sua posição. A estranha e inexplicável surpresa fica por conta daqueles que ainda se negam a dar o devido reconhecimento que ele merece.

Hoje, o alemão completa 30 anos, faltam três para sua aposentadoria, portanto ainda está em tempo de se repensar e admitir sua importância e influência seja no Real Madrid, na Alemanha ou no futebol como esporte de descobertas e evolução constante.

Precisão, disciplina e discrição, três palavras que definem a carreira de Kroos. O alemão é assim, simples e direto. Não importa qual seja a ‘missão’, ele sempre estará preparado mentalmente e fisicamente para executá-la com perfeição. Talvez, isso possa justificar de certa forma seus apelidos de Homem gelo e Franco-atirador.

Por definição um franco-atirador é aquele que elimina um inimigo com um único tiro, independente da situação ou dificuldade imposta. É possível até mesmo dizer que seu nível de precisão é exato, sem erros. Desse ponto partimos então para o futebol apresentado por Toni dentro das quatro linhas.

Seu maior talento está no passe seja ele curto, médio ou longo. A condução da bola e visão de jogo são outros dois pontos que devem ser levados em consideração. É possível ainda contar nos dedos quantos jogadores conseguiram ter um acerto nos passes, tão certeiro quando o do meia.

Toni é um estrategista, sabe bem quando deve acelerar ou diminuir o ritmo da partida. Ele trás sentindo ao conjunto, fornece opções aos colegas de equipe e na maioria das vezes é ele que está lá para ser a segunda opção em um passe mais complicado ou quando uma parte do campo está congestionada. Ele recupera a bola e distribui passes, com a mesma facilidade que respira.

A sua elegância, fácil adaptação, bom rendimento e baixo histórico de lesões fazem dele um jogador regular e constante em qualquer equipe. Entretanto, enganasse quem pensa que foi fácil, já que desde de muito cedo teve que provar que era diferente da maioria.

Kroos começou no futebol sendo treinado por seu pai Roland, e ainda pequeno se viu em um dilema. Seu talento estava ali para quem quisesse ver, mas não era o bastante. Qualquer conquista naquela época era vista como uma ajuda de seu pai. O meia sempre precisava ter atuações duas ou três vezes melhores que a maioria para não gerar comentários maldosos de favorecimento. Isso também acabou refletindo na relação entre ambos, já que Roland acabava sempre cobrando mais de Toni.

Anos depois, quando o alemão estava no Bayer Leverkusen por empréstimo e as coisas pareciam se encaminhar, recebeu uma ordem direta para retornar à Munique. Novamente teve que superar obstáculos agora com contra a diretoria do Bayern. Eles pouco pareciam se empolgar com o jogador. Com suas atitudes mornas o consideravam bom e ponto, nada além disso. Rummenigge naquela altura parecia ser o único a apostar em seu futebol dentro do clube bávaro. Calado e tranquilo, Kroos esperou sua oportunidade e quando a teve não desperdiçou, sendo decisivo na temporada de 2012/13.

Sua história começou a ganhar verdadeira forma após a Copa do Mundo de 2014. Com a Alemanha, Toni obteve o maior título de sua carreira. Como um maestro, conduziu a melodia alemã até a final onde foi campeão. Nesse caminho produziu atuações memoráveis como a diante do Brasil que terminou com um vexatório placar de 7 a 1. Ali passou a dar um novo destino em sua carreira, onde acabaria pousando na Espanha.

No Real Madrid atingiu um patamar onde poucos puderam chegar. São anos em alto nível, e depois da sua pior temporada no clube merengue soube se reinventar. Trabalhador incansável, sabe se adaptar e não exitou em mudar quando lhe foi exigido. As vezes é difícil se ter motivação quando já se ganhou de tudo e mais pouco na carreira, mas com Kroos isso é diferente.

Quando está livre dentro de campo para transitar consegue demonstrar sua melhor versão. Ainda assim, não se limita a isso. Nas tarefas defensivas também participa e as vezes arrisca um chute da entrada da área que acaba em gol. Na bola parada é mestre, tem o instinto de servir na medida um companheiro dentro da área. Mais recentemente, assumiu uma nova tarefa no estilo de jogo do Real Madrid onde demonstrou que jamais se pode duvidar do seu potencial.

Ele não quer o protagonismo, prefere deixar isso para os colegas. Faz o seu trabalho da melhor forma, sempre silenciosamente. Entretanto, isso acaba por vezes o prejudicando, já que muitos torcedores não reconhecem devidamente sua importância na equipe.

“Só tocar de lado”, “simplista” e “trator a diesel”, esses são apenas alguns dos inúmeros termos usados para desmerecer seu talento. Ainda assim, o alemão segue respondendo dentro de campo. E não importa a tarefa dada, ele vai cumprir. Apenas porque Kroos sempre cumpre.

E se por um acaso você chegou até aqui neste texto, espero que eu tenha conseguido no mínimo despertar um pouco de respeito em relação ao meia. Caso ainda tenha dúvidas não se desespere, temos três longos anos para apreciar seu futebol e seguir dimensionando sua importância na história deste esporte.